Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

ESTE PAÍS É PARA VELHOS

1.Nova Iorque é sufocante. E não o digo apenas por estarem 40 graus centígrados, que aumentam assim que mergulho nas catacumbas do metro. Não. Nova Iorque é sufocante igualmente dentro do fresco ar condicionado que as lojas colocam no máximo, de portas escancaradas, para que da rua se possa sentir o bafo frio que emana dos balcões onde empregadas-tipo-capa-da-MaxMen sorriem mesmo quando entro só para fingir que vejo etiquetas com preços que, aparentemente, discuto. Ao passar por estas ruas, transbordantes de múltiplas diásporas, não há como deixar para trás o sentimento de que a América está a mudar, que a História se escreveu tantas vezes nestes bairros durante o último século, razão pela qual, fatalmente, será também aqui que, caído o último reduto da inocência, se escreverá igualmente a decadência, essa derradeira palavra a que os impérios, inexoravelmente, se destinam.

Agora, volvidos quase sete anos sobre o 9.11, a cidade transformou-se num poço de paranóia contida, de sofreguidão esbugalhada no consumo de ‘coisas’, onde todos parecemos pertencer ao futuro, uma espécie de Blade Runner sem carros aéreos mas com câmaras por todo o lado, polícia, videntes, músicos-mendigos, turistas de narizes enfiados em mapas que os despejam em redutos onde todos se encontram, néons, granito, suor e asfalto, fumarolas e táxis frenéticos num buzinar louco, um bruah cavalgante que impede a alma de pensar. Este é o sufoco actual de Nova Iorque. Uma cidade que vive no vértice da catástrofe iminente e onde todos somos suspeitos, ainda que gastadores e consumidores, adjectivos mágicos que os impérios veneram.

E no entanto lê-se, vê-se, sente-se a palavra HOPE, escrita em todo o lado. É o nome omnipresente de um país que, enfim, enfrenta a sua esquizofrenia. Este é o novo nome desta cidade. Lembro-me de visitar Berlim nos anos 80, anos antes da queda do muro, e sentir o mesmo pulsar de mudança, tão próxima estava a cidade do precipício. A mudança viria. O muro caiu. Porque o somatório da vontade dos Homens faz a vontade inexorável da História.

Aqui, em HOPE, seria fácil usar a metáfora do muro para falar dos que faltam cair. Porque uns cairão, mas outros, tenazes na sua ruína, lamentavelmente se manterão. Este, porém, é o ano em que o mundo inteiro poderá, pela primeira vez, dizer sem qualquer embaraço: I’m american. Porque Hope é também nome de homem. Preto, carismático, jovem, ousado, corajoso e, sobretudo, impertinente como devem ser os homens. Obama para uns, pesadelo para os que alimentam a paranóia e mudança para todos.

Nova Iorque é sufocante mas respira o tempo que virá como em nenhum outro lugar do mundo. Este país não é para velhos.

 

2.Li algures que pretendem fazer em Portugal um museu ao Sr. António de Oliveira Salazar. Ora aí está uma óptima ideia, consentânea com o pulsar moderno do meu país. Um homem que nunca foi a eleições e que governou o país durante 42 anos com mão de ferro para com a oposição e, contudo, delicado e sensível, segundo consta, merece um lugar na museologia lusa. Assim, espero que nessa jóia a construir constem os relatos dos que, a bem-da-nação, foram encarcerados, torturados e mortos. Já para não falar de um retrato exaustivo da pobreza extrema a que votou o povo que, segundo dizem, amava: os que viviam por cima dos porcos para se aquecerem no inverno, os que trabalhavam 16 horas por dia para comerem couves ao jantar, os que nunca foram à escola porque mal as havia fora das cidades, os hospitais que nunca foram construídos, ou as estradas que não existiam, as guerras distantes para as quais mandou a nata da juventude, enfim, um sem-fim de benesses com que o dito brindou a populaça, que amava, segundo rezam, para que se pudesse dizer que não existia dívida externa. Ponham aqui os olhos governantes e economistas de pacotilha que tanto batalham para encontrar a fórmula mágica que torne possível, sem grande alarido, o equilíbrio da balança de pagamentos.

Que melhor museu afinal se poderia construir para enaltecer a bravura de tal génio do que o país que nos deixou? Ponhamos bilheteiras nas fronteiras e cobremos entrada. E anuncie-se: este país é para velhos.

 

 

Porto, 1 de Setembro de 2008

 

 

Pedro Abrunhosa.

sinto-me:
publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 11:07
link do post | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Março 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.posts recentes

. O TRAMBOLHÃO

. TEMOS QUE FALAR!

. NATAL: SMS'S PARA MIM NÃO...

. FOMOS O PRIMEIRO

. PAI, DESISTI DE ESTUDAR! ...

. Gripe A: a Toma da Pastil...

. MEDÍOCRE, LOGO MEDALHA.

. UM TUGA NO MUNDO

. O Cão de Obama e as Portu...

. VAMOS BRINCAR À SOLIDARIE...

.arquivos

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

blogs SAPO

.subscrever feeds